A Lista de Moro e o Jacaré do Dr. Brizola

Por Lúcio Costa

 Com a contumácia usual o Dr. Moro fez chegar às grandes empresas de comunicação uma lista em que aparecem 316 parlamentares de 24 partidos, praticamente todos os partidos com representação no Congresso Nacional. Os repasses foram realizados nas eleições de 2012 e 2014.

Pouco depois, Moro deu marcha ré e decretou segredo de justiça sobre a lista já revelada. Num despacho a buscar aparentar a isenção que lhe falta o Dr. Moro diz: “prematura a conclusão quanto a natureza dos pagamentos”.

A lista, segundo o noticiado, era de posse do inquisidor de Curitiba desde fevereiro. Obviamente ele já sabia da lista e do que ela continha. Daí ser pouco crível a afirmação do Sr. Moro de que “em decorrência de notícias da imprensa, constato que aparentemente, na residência de Benedicto Barbosa da Silva Junior foram aprendidas listas com registos de pagamentos a agentes políticos”.

Assentado que com o Sr. Moro tem-se de tudo – incluída aí a prática de ilícitos como os já descritos por ministros do STF – menos ingenuidade é de se perguntar: porque agora a lista foi entregue às grandes empresas de comunicação e a opinião publicada?

Dizem alguns: Para semear o caos, o descrédito sobre os partidos e o parlamento, para criminalizar ainda mais a atividade política e, prestar-se a legitimação de demagogos e fascistas como Bolsonaro e outros como, por exemplo, a chusma que se pôs a urrar e a proferir impropérios à frente da casa de um filho de Ministro do STF que não agiu consoante a opinião publicada.

Outros chamam a atenção: Na lista há nomes da comissão da Câmara que apreciará o impeachment. A especular, deduzem tratar-se a divulgação da lista de – sejamos cometidos – forma de convencimento a parlamentares eventualmente recalcitrantes quanto ao darem guarida a um pedido de impeachment ao qual falta a base jurídica da existência de crime de reponsabilidade.

Todas teses passiveis de discussão. Afinal, o descrédito de partidos e do parlamento, eventuais pressões a deputados acrescidos a mais alguns vazamentos de conversas de Lula e outros seriam lenha a fazer arder a fogueira do pedido de impeachment.

No entanto, há outras teses que quiçá tão boas convém serem chamadas à reflexão para ajudar a explicar o golpe em curso. Hoje escutei a uma delas.

Aos mates da tarde um amigo me contou da sua tese. Disse-me: “Veja bem, nesta lista do Moro há todo o tipo de paisano e todo tipo de situação. Tem alguns, o Cunha, o Aécio, que para serem condenados se carece apenas que haja processo tantas são as acusações e as provas. Há outros que estavam já enrolados inquéritos ou processos que seguem a trote de lesma como é o caso de Alckmin. Tem quem recebeu doações regulares de campanha, declarou os valores recebidos e tiveram suas contas aprovadas pela Justiça Eleitoral. Há também, preste atenção, outros que aparecem na lista tendo supostamente recebido doações sem sequer terem sido candidatos em eleição alguma”.

Eu, não percebendo aonde queria o parceiro, perguntei: Tá bem, mas e daí?

Me saiu com essa resposta: “É aí que me refiro tchê! Nesse carteado do Moro se joga lenha na fogueira para agora queimar o mandato da Dilma e, se vai juntando madeira para adiante pôr a mão em alguns partidos. Tu achas mesmo, que foi descuido dele dizer que havia não doações, mas pagamentos a agentes políticos? De jeito nenhum! Te digo, nessa toada se vai pavimentando a estrada para que amanhã se dê por estabelecido que, ainda que legais as contribuições recebidas por partidos, trata-se apenas de pagamento de propinas e que, portanto, estes não são partidos, mas organizações criminosas”. Aí lembrei do pedido de cassação do registro do PT protocolizado pelo PSDB no TSE.

Como arremate do argumento ajuntou o amigo: “Acharam de tudo na casa do Benedicto da Odebrecht. É tanta coisa e tanta gente que essa história lembra o causo aquele de pagarem os justos pelos pecadores. Só que, em Curitiba, quase que de certeza, se toca fogo em muitos, se misturam os justos aos pecadores para que, no meio do fumacedo, possam quiçá se esconder ou colocar em segundo plano – como o feito com um certo sítio, um aeroporto e um helicópteros com 400 quilos de cocaína – algumas coisas e algumas gentes. E de quebra, tudo ainda se presta a serventia de por mais um tijolo na trama para depor Dilma e o Lula”.

Teorias da conspiração a parte – as quais, diga-se de passagem, certamente o Dr. Moro e sua trupe fazem jus –, confesso que ao fim da prosa me veio novamente à cabeça o dito do Dr. Brizola: “Se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré”?