A banca: o sindicato do crime do tempo presente

Filme de suspense, ‘Trama internacional’ é baseado em eventos de dez anos atrás que pouco mudaram a face das ações ilegais das corporações bancárias, no mundo. Nele, o obscuro universo de lavagem de dinheiro sujo, financiamento da indústria de armas, comércio de drogas, e terrorismo. Sobretudo mostra os corruptores; sobre eles quase não se fala

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O espectador ingênuo ou desavisado assistirá Trama Internacional (The International), do alemão Tom Tykwer, como mais um fascinante filme de suspense, com ritmo absorvente, bem montado, bem produzido e bem acabado, e que mistura, nas doses certas, sequências de ação impecáveis – dentre elas, uma das mais emblemáticas do cinema do gênero, a do tiroteio antológico, durante mais de dez minutos, nos corredores da mandala do interior do Museu Guggenheim, de Nova Iorque, reproduzido com maestria em estúdio por obra e graça da arte da cenografia no cinema.

O espectador de mais idade, ou mais curioso, o melhor informado ou de memória mais longa lembrará de imediato o mega-escândalo bancário internacional, do fim dos anos 80, que na realidade e na verdade, é o incrível tema central do roteiro desse filme. O tema versa sobre os primeiros vazamentos da ação clandestina do sindicato secreto e criminoso de bancos, ao redor do mundo, que praticava (?) lavagem de dinheiro sujo das mais escabrosas procedências, financiamento (como ocorre até hoje) da indústria de armamento militar, comércio e tráfico de drogas e corrupção de governos e nações inteiras.

Lançado em 2009, ainda no calor dos chocantes acontecimentos que incluíram até assassinatos políticos, e produzido por um time da pesada – Estados Unidos, França, Alemanha e Inglaterra – a narrativa de Tykwer, que se lançou com o grande sucesso de seu primeiro filme Corra, Lola, corra, em 1998, gira em torno da trajetória de um agente da Interpol, Louis Sallinger interpretado pelo ator Clive Owen, ele também no auge do sucesso.

No filme, Sallinger está na caça de um banqueiro suspeito de todas as falcatruas descritas acima e de mais uma: de práticas de terrorismo. Quem vai auxiliá-lo nesta empreitada é a procuradora-geral assistente de Justiça de Manhattan, Eleanor Whitman, interpretada pela atriz Naomi Watts. Mas ela não permanece muito tempo atuante no desenrolar da narrativa de Tykwer.

Para realçar o sabor e a sofisticação da trama internacional verídica, as filmagens ocorreram em Berlim, Milão e Nova Iorque. O desfecho se dá em Istambul, em um cemitério muçulmano vizinho de um hipotético Grande Bazar. Prova do seu prestígio, o filme abriu o Festival de Berlim de 2009.

Trama Internacional foi baseado no caso real ocorrido com o super poderoso BCCI, Bank of Credit & Commerce International, na época o sétimo banco no ranking mundial, pivô de um dos maiores escândalos financeiros nos anos 80 do final do século passado, época da grande travessia entre os estertores de um mundo que morria e de outro, novo, que ainda não se desenhara com nitidez.

O BCCI manipulou dinheiro para Saddam Hussein, Noriega, para o Cartel de Medelín e para o terrorista Abu Nidal dentre outros clientes estrelados. Financiou a CIA para os mujahedinafegãos lavando rendimentos do tráfico de heroína cultivada na fronteira Afeganistão – Paquistão e aumentando o fluxo de narcóticos para os mercados europeus e norte-americanos.

 O coronel americano Oliver North, notório ex-fuzileiro naval que foi o rosto de duas mega operações ilícitas, o combinado Irã-Contras, também utilizou e manteve várias contas ao BCCI. Mais tarde, já velho, passou a escrever livros e teve um programa… onde? Na Fox News, é claro.

Para se ter ideia da dimensão e do porte do elenco de canalhas envolvidos no escândalo do BCCI, um de seus diretores, James Reynolds Bath, havia sido consultor do irmão mais velho de Osama Bin Laden e ex-sócio da Arbusto Energy junto com o grande amigo dele, George W. Bush. Bath possuía interesses comerciais no ramo de aeronaves e imóveis.

O filme de Tom Tykwer é uma assombrosa revelação do criminoso sindicato no sistema bancário global também conhecido como Nova Ordem Mundial, que não passava (ou passa?) de uma toda poderosa operação agindo nas sombras, sem qualquer regulamentação, e disseminada pelo mundo.

Entre os fatos reais e a verdade, diz–se em um dos (bons) diálogos, existe uma camada de versões a serem esmiuçadas. Na época essas camadas foram trazidas á luz. Depois…

Embora seja um espetáculo de cinema-para-o-verão vale a pena visitá-lo. Ele lembra que os corruptores – no caso, a banca internacional – mal são atingidos quando se abate um tsunami sobre eles. De um modo ou de outro acabam se saindo bem – exceto quando morrem assassinados.

Lembra também que a Nova Ordem Mundial é uma célula adormecida e pronta para fazer estragos em país ou em um continente inteiro, como atualmente vemos, de modo didático, ocorrer na América do Sul e na África e onde for conveniente para seus negócios.

Trama internacional não é Bond nem Missão Impossível. É a mais singela prova de que, cada vez mais, o cinema recria a realidade. Ou de que a realidade é produto da ficção cinematográfica.

*O filme Trama Internacional, na íntegra, está no NOW.