Lúcio Costa[1]
In memoriam de Gustavo Codas, militante internacionalista e voz em defesa de Fidel e de Cuba.
No centenário de Fidel Castro, revisitar a Revolução Cubana significa recuperar uma política de soberania, igualdade, internacionalismo e confiança na capacidade dos povos de transformar a história.
Em 13 de agosto de 2026, completaram-se cem anos do nascimento de Fidel Alejandro Castro Ruz. Quase dez anos depois de sua morte, sua presença na história já não depende de cargos, cerimônias ou monumentos. Permanece na experiência de um pequeno país do Caribe que realizou uma revolução socialista, afirmou sua soberania e influenciou a política mundial.
O centenário oferece uma oportunidade para recordar, mas, sobretudo, para pensar. Reduzir Fidel a um herói separado das forças sociais que o formaram empobreceria sua trajetória. Reduzi-lo à caricatura construída por seus adversários impediria compreender por que a Revolução Cubana atravessou mais de seis décadas, resistiu ao cerco da maior potência econômica e militar do planeta e se tornou referência para sucessivas gerações latino-americanas.
Fidel pertence à história porque ajudou a alterá-la. Seu legado, porém, só permanece revolucionário se servir para interpretar e transformar o presente — não como objeto de contemplação, mas como convite à ação. Para compreender a força desse legado, é preciso partir das tradições políticas que deram forma ao seu pensamento.
Martí, Marx e um caminho cubano
Fidel não chegou ao marxismo por meio de um manual, nem concebeu a Revolução Cubana como reprodução de um modelo estrangeiro. Sua formação política nasceu do encontro entre a tradição independentista de José Martí, a experiência das lutas cubanas, o anti-imperialismo latino-americano e a crítica marxista ao capitalismo.
Antes de se declarar marxista, Fidel dizia-se martiano. De Martí veio a compreensão de que a independência formal seria incompleta enquanto Cuba permanecesse subordinada aos interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos. Do marxismo veio a leitura das classes, da exploração e das forças materiais que sustentavam aquela dependência. O socialismo cubano formou-se da combinação dessas duas fontes, não da negação de uma pela outra.
Essa síntese já aparecia em A história me absolverá, sua defesa após o assalto ao Quartel Moncada, em 1953. O texto identificava no povo trabalhador — operários, camponeses, desempregados e setores empobrecidos — o sujeito da transformação e propunha reforma agrária, moradia, educação, saúde e desenvolvimento soberano. A democracia ali reclamada não se limitava à restauração de eleições: exigia modificar as condições materiais que impediam a maioria de governar o próprio destino.
Fidel também recusou um marxismo convertido em doutrina imóvel. Em discurso de 1965, afirmou: “Esta é uma doutrina revolucionária e dialética, não uma doutrina filosófica; é um guia para a ação revolucionária, e não um dogma. Pretender enquadrar o marxismo em espécies de catecismos é antimarxista.”
A formulação sintetiza uma lição que permanece atual: ser fiel a uma tradição revolucionária não é congelá-la, mas colocá-la em diálogo com a história, com os novos sujeitos sociais e com as formas contemporâneas de exploração e dominação. Depois de 1959, esse marxismo aberto seria submetido à prova decisiva: transformar a vida do povo.
A revolução medida pela vida do povo
A vitória de janeiro de 1959 derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista, mas não se esgotou na substituição de um governo. Reforma agrária, nacionalizações, alfabetização em massa e universalização dos serviços públicos deslocaram poder e riqueza. Direitos que em grande parte da América Latina permaneciam privilégios passaram a organizar a legitimidade do novo Estado.
Cuba tornou-se referência em educação, saúde pública, ciência, cultura e esporte não porque dispusesse de recursos abundantes, mas porque fez uma escolha política: tratar necessidades fundamentais como direitos e responsabilidades coletivas. A democratização do conhecimento, a criação de editoras, bibliotecas e escolas de arte e a defesa da identidade nacional expressaram uma concepção ampla de emancipação.
Essa obra não elimina erros, insuficiências ou contradições. A igualdade legal não dissolve automaticamente o racismo herdado; a socialização da economia não resolve, por si, todas as formas de dominação; e a unidade política não pode dispensar debate, participação, crítica e renovação. O que distingue uma revolução viva não é a pretensão de infalibilidade, mas a capacidade de reconhecer problemas, mobilizar o povo e corrigir rumos.
Para Fidel, essa correção dependia de crítica, autocrítica, controle popular e combate à burocratização. Não se tratava apenas de uma fórmula.
Em discurso de 1964, definiu a luta contra a burocracia como “longa e tenaz” e afirmou que o Partido não cumpriria seu dever se deixasse de enfrentá-la. Quatro décadas depois, na Aula Magna da Universidade de Havana, criticou a autocrítica ritual, restrita a pequenos grupos e sem consequências, e defendeu que ela se estendesse do núcleo partidário ao município e ao país. Sua advertência era radical: o inimigo externo não havia conseguido destruir a Revolução, mas os próprios erros, privilégios, desperdícios e deformações burocráticas poderiam fazê-lo. Assim, a crítica, a autocrítica e o debate não eram concessões, mas instrumentos de defesa e renovação do socialismo.
Angola, Cuito Cuanavale e a derrota do apartheid
Essa concepção de responsabilidade revolucionária ultrapassou as fronteiras de Cuba. O internacionalismo cubano não foi apenas uma orientação diplomática. Na África Austral, converteu-se em compromisso material com os povos que lutavam contra o colonialismo e o regime do apartheid (segregação racial).
Em 1975, quando Angola conquistava a independência de Portugal e sofria a invasão de tropas da África do Sul, articuladas com a UNITA e apoiadas pelos Estados Unidos, Cuba respondeu ao pedido de auxílio do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Sob a liderança de Fidel, Cuba enviou, por meio da Operação Carlota, combatentes e recursos para impedir que a independência angolana fosse sufocada pelo regime racista e por seus aliados. A decisão impôs elevado custo humano e material a uma ilha já submetida ao bloqueio, sem lhe oferecer vantagens territoriais ou econômicas.
O momento decisivo ocorreu entre 1987 e 1988. Em Cuito Cuanavale, forças angolanas e combatentes cubanos contiveram a ofensiva do exército sul-africano e da UNITA. Fidel acompanhou e dirigiu estrategicamente as operações a partir de Havana, determinando o envio de reforços e a reorganização do dispositivo cubano-angolano. A resistência em Cuito, combinada com o avanço em direção à fronteira da Namíbia, alterou a correlação de forças e impulsionou as negociações que resultaram nos Acordos de Nova York, em dezembro de 1988, e no processo de independência namibiana.
Cuito Cuanavale não explica, por si só, o fim do apartheid, resultado de décadas de luta do povo sul-africano, do Congresso Nacional Africano, dos movimentos populares e da solidariedade internacional. Foi, contudo, um ponto de inflexão. Em visita a Cuba, em julho de 1991, Nelson Mandela agradeceu a Fidel e ao povo cubano e definiu a batalha como um marco na libertação da África e de seu país, reconhecimento registrado pelo Parlamento da África do Sul.
Angola demonstrou que, para Cuba, internacionalismo significava compartilhar riscos, recursos e vidas para que outro povo pudesse ser livre. O mesmo princípio orientou sua atuação em Nossa América.
Nossa América: revolução, solidariedade e resistência às ditaduras
Na América Latina, a vitória cubana produziu uma mudança profunda no horizonte político continental. A revolução e o socialismo deixaram de aparecer apenas como formulações doutrinárias ou experiências situadas fora do continente. Cuba demonstrou que um povo latino-americano podia derrotar uma ditadura sustentada por Washington, romper relações de dependência e transformar as estruturas de propriedade, do Estado e dos direitos sociais.
Esse caminho recebeu definição pública em 16 de abril de 1961, nas homenagens às vítimas dos bombardeios que antecederam a invasão da Baía dos Porcos. Diante das milícias e do povo mobilizado, Fidel declarou o caráter socialista da Revolução, definindo-a como uma revolução “dos humildes, com os humildes e para os humildes”. A proclamação deu nome ao processo aberto pela reforma agrária, pelas nacionalizações e pela universalização de direitos, afirmando a maioria trabalhadora e popular como sujeito da transformação.
O impacto continental foi imediato. A experiência cubana alimentou organizações revolucionárias, movimentos camponeses, lutas operárias e correntes anti-imperialistas. Em agosto de 1967, Havana sediou a primeira conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), que procurou articular essas forças em escala continental.
A relação de Fidel com o Chile de Salvador Allende expressou esse reconhecimento da diversidade dos caminhos revolucionários. Em sua visita de 1971, encontrou-se com trabalhadores, mineiros e estudantes e reconheceu na Unidade Popular uma tentativa de construir o socialismo pela via escolhida pelo povo chileno.
O golpe de 11 de setembro de 1973, a morte de Allende e a instalação da ditadura de Augusto Pinochet converteram solidariedade política em dever de acolhimento. Cuba recebeu perseguidos e exilados, ofereceu-lhes estudo e condições para reorganizar a vida e manteve a denúncia dos crimes da ditadura. Relação semelhante foi construída com as vítimas do terrorismo de Estado argentino. Em 1988, uma delegação das Mães da Praça de Maio participou, em Cuba, de um encontro continental de mulheres, iniciando uma ligação duradoura com Fidel e com o país.
Essa solidariedade alcançou resistentes de diferentes nações. Fidel denunciou a Operação Condor, sustentou a Revolução Sandinista diante da agressão externa, defendeu a independência de Porto Rico e manteve no horizonte a unidade latino-americana inspirada em Bolívar e Martí. Os instrumentos variaram — da resistência revolucionária às negociações de paz, do acolhimento de exilados à cooperação entre Estados —, mas permaneceu um princípio: nenhum povo deveria enfrentar sozinho a dominação imperial ou o terrorismo de Estado.
Cuba diante do bloqueio e de seus próprios desafios
A projeção internacional de Cuba, contudo, conviveu, desde o início, com a hostilidade dos Estados Unidos. A invasão da Baía dos Porcos, as operações clandestinas, os atentados, as conspirações contra Fidel e o bloqueio econômico compõem uma política persistente destinada a impedir que a ilha escolha soberanamente seu caminho.
O bloqueio não é uma abstração retórica nem explica, sozinho, todos os problemas cubanos. É um sistema concreto de restrições comerciais, financeiras e tecnológicas, com alcance extraterritorial, que encarece alimentos, combustíveis, medicamentos, equipamentos e transações. O balanço econômico da CEPAL para 2025 registrou contração econômica, crise no turismo e na energia, escassez de divisas e insumos e o peso das sanções, mas também apontou desequilíbrios internos, dificuldades estruturais e atrasos na realização de reformas.
Defender Cuba exige enfrentar o bloqueio sem substituir a análise concreta por explicações confortáveis. Significa reconhecer a capacidade do povo cubano de discutir mudanças, corrigir políticas e ampliar o controle democrático sobre seu futuro. Foi essa disposição que Fidel condensou, em 1º de maio de 2000, em seu conceito de revolução: compreender o momento histórico, mudar o que precisa ser mudado, defender a igualdade e agir com ética, audácia, inteligência e realismo. Fidelidade, nesse sentido, não significa imobilidade.
Fidel, depois de Fidel
Fidel ultrapassou as fronteiras de Cuba porque deu forma política a uma questão comum à América Latina: pode um povo da periferia conquistar soberania real num sistema internacional organizado pela desigualdade? A Revolução Cubana respondeu que a dependência não é destino e mostrou, ao mesmo tempo, as possibilidades, os custos e os limites de uma transformação economicamente cercada.
No século XXI, antigas relações de dominação reaparecem no poder financeiro, nas plataformas digitais, no controle tecnológico, na devastação ambiental, no racismo, no patriarcado e na extrema direita. Lembrar Fidel é perguntar quais forças sociais, organizações e programas podem hoje produzir uma transformação democrática, popular, antirracista, feminista, ecossocialista e anti-imperialista.
É também recuperar sua busca pela unidade — não como apagamento das diferenças, mas como construção de objetivos comuns. Sem programa, enraizamento popular e capacidade de somar, a correção das ideias não se converte em força histórica.
Há uma forma conservadora de homenagear revolucionários: transformá-los em imagens inofensivas e repetir suas palavras fora do tempo. Com Fidel, essa operação seria especialmente contraditória. Sua trajetória foi marcada pela leitura das circunstâncias, pela capacidade de corrigir táticas e pela confiança de que os povos podem realizar aquilo que parecia impossível.
Aos cem anos de seu nascimento, a atualidade de Fidel está na defesa da soberania cubana e no combate ao bloqueio; na igualdade como medida da política; na cultura como território da liberdade; no internacionalismo convertido em compromisso concreto; e na renovação do socialismo pelo protagonismo popular.
Fidel continua contemporâneo porque as estruturas que combateu ainda existem. O melhor tributo ao seu centenário não é apenas dizer “Fidel vive”, mas fazer viver, nas condições de nosso tempo, a vontade coletiva de emancipação que tornou sua presença inesquecível.
Viva Fidel! Pátria ou Morte! Venceremos!
DUAS LEITURAS PARA COMPREENDER FIDEL CASTRO
A trajetória de Fidel Castro costuma ser apresentada por meio de imagens extremas: de um lado, a celebração sem reservas; de outro, a caricatura que reduz sua atuação à permanência no poder. As duas leituras aqui recomendadas permitem uma aproximação mais consistente de sua formação intelectual, de sua experiência revolucionária e das concepções políticas que orientaram sua atuação.
FIDEL CASTRO: BIOGRAFIA A DUAS VOZES, DE IGNACIO RAMONET[2]
Publicada no Brasil pela Boitempo, Fidel Castro: biografia a duas vozes resulta de mais de cem horas de conversas entre Fidel Castro e o jornalista Ignacio Ramonet. Embora o título a apresente como biografia, a obra está mais próxima de uma autobiografia oral conduzida por entrevistas.
Ao longo do livro, Fidel reconstrói sua infância, sua formação política, o assalto ao Quartel Moncada, a prisão, o exílio, a luta na Sierra Maestra e os principais acontecimentos da Revolução Cubana. Também aborda as relações com Che Guevara, a invasão da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis, o internacionalismo cubano, o desaparecimento da União Soviética e os desafios enfrentados por Cuba nas décadas posteriores.
O principal valor da obra está no acesso direto à maneira como Fidel interpretava sua própria trajetória. O leitor encontra não apenas uma narrativa de acontecimentos, mas também argumentos, justificativas, avaliações e recordações formulados pelo próprio dirigente revolucionário.
Essa proximidade exige, entretanto, uma leitura crítica. Não se trata de uma biografia externa e independente, mas da memória política de Fidel construída em diálogo com Ramonet. A obra deve ser lida como fonte fundamental para compreender sua visão de mundo, e não como julgamento definitivo sobre a história da Revolução Cubana.
Acesse o livro: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/fidel-castro-152613?srsltid=AfmBOooa3ShifmTsH-ZMa9tpNRj8CAW3vH-5r9_2h685fcb7vmuXz2Fp
FIDEL Y EL MARXISMO DE LA REVOLUCIÓN CUBANA: REBELIÓN CONTRA LOS DOGMAS , FRANK JOSUÉ SOLAR CABRALES[3]
O ensaio de Frank Josué Solar Cabrales oferece uma chave de interpretação para a formação política de Fidel e para o marxismo desenvolvido no interior da Revolução Cubana.
O autor contesta a ideia de que a experiência cubana tenha sido simples aplicação de um modelo soviético. Segundo sua análise, o pensamento de Fidel resultou do encontro entre o marxismo revolucionário, a tradição de independência nacional e, especialmente, o legado político de José Martí. Fidel teria chegado ao marxismo “pela senda de Martí”, incorporando Marx e Lenin a partir das necessidades concretas da realidade cubana.
O texto mostra que a Revolução de 1959 contrariou os esquemas predominantes no movimento comunista internacional. De acordo com as interpretações mais rígidas daquele período, Cuba deveria atravessar uma etapa prolongada de desenvolvimento capitalista antes de iniciar uma transformação socialista. A experiência revolucionária cubana rompeu essa sequência previamente estabelecida.
Nesse sentido, a “rebelião contra os dogmas” mencionada no título não significa abandono dos princípios marxistas. Refere-se à recusa de transformar o marxismo em catecismo, conjunto de fórmulas ou modelo estrangeiro a ser mecanicamente reproduzido. O marxismo aparece como método de análise e guia para a ação, sujeito à verificação histórica e à criatividade política.
O ensaio é particularmente relevante para compreender três características do pensamento de Fidel: a articulação entre questão nacional e transformação social; a importância atribuída à prática revolucionária; e a defesa de um marxismo capaz de aprender com a realidade, inclusive com erros, derrotas e insuficiências.
Acesse: https://latizzadecuba.org/fidel-y-el-marxismo-de-la-revolucion-cubana-rebelion-contra-los-dogmas/
[1] Advogado gaúcho, assessor do Sindicato dos Bancários de P. Alegre e Região e do Sindicato dos Petroleiros do RS.
[2] Ignacio Ramonet é jornalista e ensaísta espanhol, doutor em Semiologia e ex-diretor do Le Monde diplomatique.
[3] Frank Josué Solar Cabrales é historiador cubano, doutor em Ciências Históricas e professor da Universidade de Oriente. Especialista na luta insurrecional contra Batista, pesquisa o Movimento 26 de Julho e a formação política da Revolução Cubana. É autor de estudos sobre Fidel Castro e o marxismo revolucionário cubano.
