In Memoriam de Ântonio Lucas de Oliveira

In memoriam de Dom Antonio Lucas de Oliveira, falecido em 04 de março de 2016 aos 86 anos de idade.

Á Dom Lucas, sinuelo de compromisso e solidariedade com o povo.

Homenagem realizada pelo sobrinho e professor Sayd Salomon na oportunidade do velório, realizado em 04 de março de 2016, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Muito obrigado a todos e todas que compareceram e se fizeram aparecer, presencialmente ou distância, com abraços, carinhos e conforto, para mim e minha família nesse momento singular que é uma despedida.
Estávamos e seguiremos tristes, mas ao mesmo tempo plenos por todo a vida e a obra do vô. Do seu convívio herdaremos uma trajetória bonita, experiências e vivências que a sua maneira ele compartilhava, recusando sempre o protagonismo dos seus feitos cotidianos.
O vô um dia se apaixonou pela vó, e por ela seguiu apaixonado sempre, e tudo o que ele fez a partir desse dia foi com ela ou por ela.
O vô criou e ensinou a sua maneira filhos e filhas.
O vô contruiu um casa, uma bliblioteca e um pátio.
O vô brigou pelo seu loteamento, hoje Jardim Itati, e um dia sugeriu para que os nomes das ruas fossem de países africanos que recentemente estavam se tornando independentes (por isso temos á Senegal, Guiné, Congo, Tunísia…)
O vô se formou professor.
O vô lutou.
O vô foi preso.
O vô se exiliou com a família (esposa e seis filhos): no Chile, em Cuba, em Guiné.
O vô voltou.
O vô reuniu a família.
O vô viu netas e netos nascerem.
O vô escreveu um livro.
O vô lutou pelo calçamento da parade de ônibus do Educandário.

Abaixo posto o poema, que ele pediu que tocasse em seu velório, e que pode ser lido como uma oração, um mantra, ou simplesmente como um poema, que resume uma das grandes convicções do vô: “a poesia é uma arma carregada de futuro”.

E na sequencia deixo o relato que o vô fez pra Comissão Nacional da Verdade, há dois anos atrás.

E como disse ontem, o vô não vai fazer falta, porque o vô sobrou em vida!

A POESIA É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO

Quando já nada se espera de pessoalmente exaltante,
mas se palpita e se continua para cá da consciência,
ferozmente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que lateja nas trevas,

quando se olham de frente
os claros olhos vertiginosos da morte,
dizem-se as verdades:
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades.

Dizem-se os poemas
que dilatam os pulmões de quantos, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para o que sentem excessivo.

Com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, converte-se o real
no idêntico a si mesmo.

poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dizer um sim que glorifica.

Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam
dizer que somos quem somos,
nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.
Estamos a tocar o fundo.

Maldigo a poesia concebida como um luxo
cultural pelos neutrais
que lavando as mãos, se desinteressam e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.

Faço minhas as faltas. Sinto em mim quantos sofrem
e canto ao respirar.
Canto, canto, e a cantar para além de minhas mágoas
pessoais, fico maior.

Quisera dar-vos vida, provocar novos actos,
e calculo por isso com técnica, que venço.
Sinto-me um engenheiro do verso e um operário
que com outros trabalha Espanha nos seus aços.

Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao mesmo tempo pulsação do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto ao peito.

Não é uma poesia gota a gota pensada.
Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que difunde o que dentro levamos.

São palavras que todos repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o que elas dizem.

São o mais necessário: o que possui um nome.
São no céu, e, na terra, são actos.

Gabriel Celaya