SOBRE GOLPES

 

Por Christopher Goulartchris

Advogado, Primeiro Suplente de Senador (PDT-RS)

 

Registrada na história, a data de 31 de março iniciou o golpe civil-militar que derrubou João Goulart da presidência da República. Foi o dia exato em que o General Mourão Filho, aquele que ficaria conhecido como “a vaca fardada”, ordenou que as tropas da quarta divisão de infantaria partissem de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro. Seria o início de um desfecho golpista que sepultou as Reformas de Base. Um golpe clássico com os típicos ingredientes da Guerra Fria.

O retrato atual do clima de tensão no país, de acirramento de ânimos acentuando-se a cada dia, aponta luzes para o fatídico episódio de 1964.  Mesmo admitindo que existem semelhanças de contexto, entendo que não há fundamento entre comparações com Jango e Dilma! O Presidente João Goulart, num período de governo presidencialista de menos de um ano e três meses, avançou propondo as reformas de Estado em praça pública, procurando sempre o diálogo com o povo e com o Congresso Nacional.

O Governo do protagonismo Petista originário de 2003, em seu quarto mandato, nunca ousou a “subversão” da ordem injusta, aprofundando reformas Estruturais ou Institucionais. Confundiu justiça Social com assistencialismo. Foi permissivo e até conivente com o Sistema econômico do “Status Quo”. Nunca antes na história deste país os bancos ganharam tanto dinheiro. A esperança venceu o medo, entretanto, o Sistema Financeiro especulativo permaneceu inquestionável.

As diferenças elementares entre Trabalhismo e “Petismo” não justificam jamais a interrupção da Estabilidade Democrática, e aqui reside a semelhança. Entendo que “impeachment, sem crime de responsabilidade, é golpe”. Não vislumbro, ainda, um crime fatal a ponto de efetivar tal medida extremada. Aplaudo todas as iniciativas de combate à corrupção, quando dentro da legalidade. Acontece que incompetência de gestão ou baixa popularidade, lamentavelmente para alguns, não pode ser o motivo para derrubar um Chefe de Estado, eleito democraticamente pelo voto.

Certamente a história não me pertence, as interpretações são livres. Opto pela lição de cautela, herdada do personagem que será lembrado exaustivamente durante estes dias, João Belchior Marques Goulart. De outra sorte, seria eu leviano com a memória de meu avô ao manter-me na omissão, em nome deste legado político, que se confunde com a história do Brasil.