Advogados criminalistas divulgam carta condenando ‘espetacularização’ da Justiça

Após o encerramento do VII Encontro Brasileiro dos Advogados Criminalistas, no último sábado (2), a Abracrim divulgou carta em que critica fortemente o que considera constantes violações do direito constitucional de presunção de inocência e do devido processo legal por parte de um grupo de magistrados brasileiros, que incluiria o juiz Sérgio Moro, que lidera a Operação Lava Jato, e também por parte do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento também repudia “a figura do julgador justiceiro”.

Por Luís Eduardo Gomes

“O estado policial, apoiado por violações reiteradas, quer pelo STF, quer pela República de Curitiba, através do juiz Sérgio Moro, se espalha pelo Brasil todo permitindo a juízes fazerem ‘justiçamento’ onde há uma precarização do exercício da defesa”, analisa Jorge Garcia, advogado criminalista que participou do evento.

Segundo ele, a Abracrim considera que há uma corrente de juízes que agem para atender o sensacionalismo da mídia e violam a presunção de inocência e as prerrogativas dos advogados de defesa. “O juiz justiceiro é aquele que julga pela sua cabeça e motivado pelas mídias, pela vontade deliberada de produzir notícias e escandalizar, sem poupar pessoas que sequer foram acusadas e que se tornam criminalizadas e julgadas por uma mídia que tem interesses nacionais e estratégicos”, diz Garcia. “[Fizemos] uma grande crítica a essa espetacularização da Lava Jato. Mostramos ao Brasil que essa operação já passou há muito do exame de situações de corrupção no Brasil e agora está seletivamente criando factoides, prendendo pessoas e violando a presunção de inocência e o devido processo legal”.

Saiba mais

Procuradora denuncia estratégias de criminalização de movimentos sociais no país

No encontro, que reuniu os principais criminalistas do Brasil, foi feito um “chamamento” para que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) assuma a defesa das prerrogativas do exercício profissional dos advogados criminalistas. Eles também criticaram a posição do STF diante das violações que apontam. “O STF, que deveria ser o guardião das cláusulas pétreas, especialmente da presunção de inocência, foi o primeiro a quebrá-la e a impulsionar a atividade político partidária”, avalia Garcia.

Confira a seguir a nota da Abracrim na íntegra:

“CARTA DE CURITIBA DOS ADVOGADOS CRIMINALISTAS BRASILEIROS”

Os advogados criminalistas, reunidos em seu “VII Encontro Brasileiro”, realizado na cidade de índiceCuritiba, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, nos dias 30/6 e 1º/7/2016, sob os auspícios da ABRACRIM – Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas, ao fim de todas as sessões de trabalho, resolvem proclamar solenemente à Nação:

I- O Estado democrático de direito brasileiro se assenta na ordem constitucional estabelecida com a Carta Magna promulgada em 1988 e contém a expressão da vontade geral do povo, manifestada por seus legítimos representantes, devendo ser preservada acima das crises ou conjunturas de ocasião;

II- A Constituição da República, portanto, consiste na única referência legítima das ações do Estado, materializadas por seus Poderes, e não pode ser substituída por qualquer diversionismo que minimize, anule ou revogue os princípios contidos em seu corpo permanente. O STF é o seu intérprete e guardião, mas não está investido da competência de promover sua alteração;

III- A indispensabilidade e a inviolabilidade da advocacia, máxime da criminal, é postulado fixado pelo povo brasileiro em seu Documento Maior e não há, fora do devido processo legislativo, mecanismo legítimo que possa negá-lo. A referência de todas as coisas é o texto constitucional, que não é substituível por artifícios hermenêuticos ou autorreferências de seu Intérprete Maior;

IV- São intocáveis as garantias fixadas, em cláusula pétrea no seu artigo 5°;

V- O combate à criminalidade não pode ter lugar por método consequencialista com anulação de franquias constitucionais. O “Pragmatismo” não é compatível com o devido processo legal nem os fins visados podem justificar todos e quaisquer meios nas democracias dignas de assim serem conceituadas;

VI- O fenômeno da jurisprudencialização crescente do direito a gerar o sofisma de que “o direito só é o que o judiciário diz que é” não é dogma a ser aceito quando a interpretação da norma se contrapõe ao seu desígnio;

VII- A intervenção do Estado na liberdade individual não terá legitimidade sem a demonstração efetiva de que a conduta incriminada tenha realmente lesado bem jurídico, sendo inadmissíveis as criminalizações calcadas na lesão de deveres genéricos ou na presunção de perigos abstratos;

VIII- A primeira garantia fundamental de todo acusado – constitucionalmente presumido inocente – é ser julgado por um juiz natural e que seja imparcial, repudiada a figura do julgador justiceiro, da jurisdição universal de um só órgão e a prisão sem culpa formada para o fim de se extorquirem confissões;

IX- Os advogados brasileiros que militam no foro criminal declaram sua permanente hostilidade a qualquer forma de arbítrio ou autoritarismo, se empenham na causa da isonomia de gênero e reafirmam que continuarão a luta pela liberdade e e pela defesa da ordem constitucional democrática.

Sessão Plenária, Curitiba, 1° de julho de 2016.

Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas

ABRACRIM

Comissão de Redação do manifesto final do “VII EBAC – Encontro Brasileiro dos Advogados Criminalistas”:

“CARTA DE CURITIBA DOS ADVOGADOS CRIMINALISTAS BRASILEIROS”

Presidente: José Roberto Batochio.

Membros Palestrantes:

Alexandre Kassama;

Alexandre Morais Da Rosa;

Cid Vieira De Souza;

Emanuel Messias Oliveira Cacho;

Ezequiel Vetoretti;

Flávio Cruz;

Geraldo Prado;

Jader Marques;

James Walker;

Juarez Cirino Dos Santos;

Juarez Tavares;

Lenio Luiz Streck;

Leonardo de Bem;

Leonardo Isaac Yarochewsky;

Luiz Flávio Borges D’Urso;

Mário De Oliveira Filho;

Marta Beatriz Tedesco Zanchi;

Paulo Ramalho;

Priscilla Placha Sá;

Salah Hassan Khaled Júnior;

Técio Lins e Silva;

Elias Mattar Assad

Presidente

logo