Carnaval: Origens da Folia

Entrudo-RuadoOuvidor1884No Brasil, o carnaval surgiu na segunda década do século XVIII, com a migração dos ilhéus portugueses da Madeira, Açores e Cabo Verde. As festividades carnavalescas chamadas de Entrudo (palavra de origem latina que significa entrada), eram verdadeiras guerras nas ruas, em que as armas utilizadas variavam entre bisnagas de lata, cabaças de cera, chamadas também de limões-de-cheiro, farinha ou gesso, cartuchos de pó de goma, bombinhas de mau cheiro, enfim, toda a sorte do que se pudesse jogar nos transeuntes desavisados. Durante os três dias que antecediam a Quarta-Feira de Cinzas, o tumulto dominava as ruas das cidades brasileiras.

Cabe ressaltar que o carnaval de hoje não limita suas origens ao Entrudo. Manifestações religiosas e folguedos populares alicerçam também nossa expressão carnavalesca, como é o caso dos ranchos de reis que deram origens aos ranchos que por sua vez são os antepassados das escolas de samba.

Ranchos Carnavalescos

Os ranchos carnavalescos começaram a aparecer no carnaval do Rio de Janeiro no final do século XIX e início do século XX, como um tipo de cortejo mais organizado que os blocos e cordões. Eram uma sobrevivência das alas de certas procissões, como a de Nossa Senhora do Rosário, em que se permitiam cantos e danças de caráter dramático. Ao se organizarem como ranchos, os blocos e cordões passaram a desfrutar de grande popularidade, como o Ameno Resedá, Dois de Ouro, Flor do Abacate, Rosa Branca, Cananga do Japão, Rosa de Ouro, Recreio das Flores, entre outros.

Há quem atribua a paganização dos ranchos ao gesto do tenente da Guarda Nacional, o baiano Hilário Jovino Ferreira, que fundou em 6 de outubro de 1894 com alguns conterrâneos, o rancho Rei de Ouros e decidiu que sairiam no Carnaval. A sede da agremiação ficava no bairro da Saúde no Rio de Janeiro. Em 1840, além da folia de rua, surge uma nova forma de comemoração carnavalesca promovida pela burguesia que não compartilhava dos excessos do Entrudo – os bailes de máscara.

Sociedades Carnavalescas

Na segunda metade do século XIX, surge, no carnaval do Rio, a primeira grande sociedade chamada Sumidades Carnavalescas. A partir dela, várias outras grandes sociedades apareceram: União Veneziana, Euterpe Comercial e Zuavos Carnavalescos, dissidências das Sumidades.

Das muitas sociedades que existiram nos primórdios, três foram chamadas de “heróis do carnaval”, devido as suas atuações no âmbito da vida nacional, sobrevivendo aos dias atuais: Fenianos, Clube dos Democráticos e Tenentes do Diabo.

Nos desfiles desses grupos destacavam-se grandes carros alegóricos conhecidos como “carros de crítica” por satirizarem os problemas nacionais, os fatos e os homens políticos. A partir da década de 1940, essa expressão carnavalesca entraria em decadência, deixando em aberto seu espaço nas ruas das principais cidades do país.

O Corso

Em 1907, surge uma nova forma de diversão no carnaval carioca que passará a ser incorporado aos carnavais de outras capitais brasileiras, o “corso” (desfile em carros abertos). O domingo foi escolhido o “dia do corso”, e era uma oportunidade ímpar paraCorso as conquistas amorosas. Até o final dos anos 30, era um dos momentos de maior destaque no carnaval.

A Música no Carnaval

Quanto à música, o carnaval foi, durante um longo período, fonte de inspiração para um dos mais significativos segmentos do cancioneiro brasileiro. De tal maneira que, durante o período áureo do rádio, a música popular dividia-se entre música carnavalesca e música de meio de ano. Curioso é observar, no entanto, que durante mais de meio século a festa existiu sem música própria. Os bailes de máscara da segunda metade do século XIX eram apenas bailes mascarados. Conta-nos Edgar de Alencar: “Não havia cantigas. E as danças eram as mesmas de outros bailes, isto é a valsa, o xote, a habaneira, a quadrilha. Depois houve o reinado longo e avassalador da polca, que, misturada ao lundu, daria margem ao nascimento do maxixe, primeira dança urbana nacional”.

O certo é que os gêneros musicais mais autenticamente cariocas, a marchinha e o samba, surgiram com o propósito de dar ritmo à desordem carnavalesca. Foram os ranchos que ao adotarem a formação das procissões religiosas, instituíram um mínimo de disciplina em meio ao caos do carnaval. Em 1899, uma agremiação chamada Cordão Rosa de Ouro encomendou a maestrina Chiquinha Gonzaga a famosa marcha Ó abre-alas, declaradamente inspirada na cadência que os negros imprimiam ao desfile. Esta passaria a ser considerada a primeira canção carnavalesca brasileira. Só mais tarde, nas duas primeiras décadas do século XX, a música de carnaval se fixaria, manifestando-se, inicialmente, na forma de marchinha e marcha-rancho ou de samba e batucada e, com o surgimento das escolas de samba, na forma de samba enredo.

As Escolas de Samba

As escolas de samba, são legítimas descendentes dos ranchos carnavalescos. Aescola primeira escola de samba a surgir foi a Deixa Falar, em 1929, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Do Estácio, a novidade se espalhou pela cidade, especialmente pelos morros e subúrbios. A Praça Onze passou a ser o local de concentração, nem sempre eram pacíficas, delas. Apesar disso, a tendência do sistema era de regulamentar-se. As modernas escolas de samba são sociedades civis, legalmente registradas, que elegem seus dirigentes. A partir de 1952 o desfile das principais escolas passou a se realizar na Avenida Presidente Vargas. De 1978 em diante, antes com estruturas desmontáveis, depois com projeto de Oscar Niemeyer, a Avenida Marquês de Sapucaí, tornou-se definitivamente a Passarela do samba, também chamada de Sambódromo.

Nas grandes Escolas de samba, chegam a desfilar com 6.000 componentes, divididos entre diferentes setores: abre-alas, diretoria e velha-guarda, comissão de frente, passistas, carros alegóricos, alas (grupos com certa autonomia dentro da agremiação e que se apresentam com fantasias iguais), baianas (ala tradicional, composta geralmente pelas mulheres mais idosas da comunidade), porta bandeira e mestre sala e bateria. As escolas em seu processo de desenvolvimento adotaram o enredo como um dos componentes estruturais indispensáveis, de 1935 a 1990, as Escolas por decisão governamental apresentavam enredos inspirados na História do Brasil. Ainda que não haja mais obrigatoriedade com relação à temática de caráter histórico, as escolas, em sua maioria, seguem levando para a passarela temas ligados ao universo brasileiro.

O Carnaval do Frevo

Um dos mais tradicionais e ecléticos carnavais do Brasil é, sem dúvida, o que se realiza no Recife e em Olinda, em Pernambuco. Além da diversidade de manifestações, há a especificidade sonora e coreográfica do frevo.

O frevo é um gênero eminentemente urbano e recifense, surgido no final do século XIX. Nasceu da interação entre música e dança, tornando-se difícil, ao se tratar do assunto, separar os dois elementos, já que se desenvolveram interdependentemente.

Foi a partir de 1880 – quando a música de rua do Recife passou a ser fornecida não mais exclusivamente por bandas militares (as duas mais famosas eram, na época, a do 4o. Batalhão de Artilharia, conhecida como O Quarto, e a da Guarda Nacional, conhecida como Espanha, por ser seu maestro, Pedro Garrido, de origem espanhola), mas também por fanfarras organizadas por trabalhadores humildes (carvoeiros, vassoureiros, caiadores, lenhadores etc.) – que o frevo começou a se fixar como gênero musical. Com o tempo, as corporações se transformaram em clubes ou troças, mais abertos, e foram ganhando nomes bastante curiosos, como Canequinhas Japonesas, Marujos do Ocidente e Toureiros de Santo Antônio.

Os bonecos gigantes surgiram na Europa, possivelmente na Idade Média, sob a influência dos mitos pagãos deformados pelos temores da repressão imposta pela Inquisição. Eles desfilavam, primeiro, nas procissões medievais, antes de se exorcizarem os demônios do medo, na figura dos bufões e dos palhaços carnavalescos.

A Bahia e o Afoxé dos Filhos de Gandhi

Na Bahia, o carnaval foi às ruas a partir de 1884, com o desfile do Clube CarnavalescoFoto_antiga_do_bloco_Afoxé_Filhos-de_Gandhy_com_estivadores_do_Porto_de_Salvador Cruz Vermelha, fundado em 1o de março do ano anterior.

Pode-se dizer, com segurança, que, ainda que houvesse carnaval na rua, não havia carnaval de rua, espontâneo, popular, em Salvador até o final dos anos 1940. O que se via eram desfiles das grandes sociedades e, posteriormente, o desfile do corso. Em 1949, no entanto, ano do IV Centenário da Fundação da Cidade de Salvador, é criado o afoxé Filhos de Gandhi, pelos estivadores do porto de Salvador, como forma de homenagear o grande líder pacifista indiano assassinado em 1948, Mahatma Gandhi.

A marca mais significativa do carnaval baiano contemporâneo é, precisamente, o convívio do afoxé de caráter religioso com o trio elétrico, manifestação que revolucionou o Carnaval brasileiro na segunda metade do século XX.

Fonte: Biblioteca Nacional