Direita Volver: a nova direita no Brasil

A direita brasileira saiu do armário. Grupos de manifestantes tomaram as ruas e as redes sociais alinhados a discursos e propostas que se sedimentaram em torno da consigna de “Fora Dilma e leve o PT junto” marcados fortemente por um discurso de ódio, apologia da violência politica, racismo, homofobia e aversão aos pobres e às politicas sociais.

No marco do  debate sobre o ressurgimento do conservadorismo político no Brasil contemporâneo a  Fundação Perseu Abramo publicou o livro “Direita Volver”.

Coordenada por Sebastião Velasco e Cruz, André Kaisel e Gustavo a obra reúne uma série de autores a analisar o fenômeno da emergência da “nova direita” no cenário politico.

Em Porto Alegre, o lançamento do livro ocorrerá na próxima segunda-feira (04/04) com a presença de Sebastião Velasco. Fica o convite. direita_volver

Abaixo a apresentação da obra e um link para o acesso a toda a obra

Apresentação

O passado condena. Foi assim com a extrema-direita na Europa no pós-guerra. Manchada pela exibição mundial dos horrores do nazismo e pela vergonha da colaboração com os invasores, a extrema direita encolheu por toda Europa, e desceu aos subterrâneos da vida pública. É certo, desde então a política nos países europeus foi estruturada em termos de um embate ainda travado entre dois campos, à direita e à esquerda. Mas a competição entre eles se fazia agora de forma civilizada, no âmbito do grande consenso que calçava o chamado Estado de Bem-Estar Social. A direita pura e dura, que desempenhara papel tão relevante na política desses países em passado recente, parecia ter se esvanecido. No universo da política institucional, ela estava banida.

Algo parecido aconteceu no Brasil e, de maneira geral, na América Latina no final do século passado, quando a derrocada do bloco socialista e a desagregação da União Soviética encerraram a Guerra Fria e instauraram um período inédito, que muitos imaginaram de paz e prosperidade, sob a firme condução da superpotência solitária, os Estados Unidos (EUA). Nessa fase, acreditava-se, toda a política seria pautada pelo binômio economia de mercado e democracia. No mundo globalizado esses dois vetores surgiam como imperativos. Eles ditavam os rumos da política econômica e social adotados na região, como em outras partes do mundo. Nesse contexto, entre nós, também, o passado próximo tornava-se incômodo. Com diferenças sensíveis de um país a outro, assistimos na América Latina à consagração da democracia representativa como regime político incontornável e dos direitos humanos como seu alicerce. Em tais circunstâncias, a vinculação com os regimes militares convertia-se em ônus para os indivíduos e grupos que disputavam posições na arena política. Mesmo naqueles países em que a transição foi muito complacente com o patrimônio simbólico das ditaduras pretéritas, seus herdeiros civis eram compelidos a inventar credenciais democráticas e ajustar o seu discurso.

O passado condena, mas o tempo corrói a memória. Na oitava década do século passado, 40 anos transcorridos desde o final da Segunda Guerra Mundial, a extrema direita estava de volta ao proscênio da política europeia. E desde então vem aumentando paulatinamente o seu espaço nela. Não caberia inventariar aqui os fatores que levam a tal resultado – alguns deles são óbvios: a crise do Estado de Bem-Estar, a maré montante do desemprego, a xenofobia despertada pelo aumento da população imigrante. Seja qual for a combinação exata entre esses e outros condicionantes, o certo é que a Europa convive há muito com o fenômeno da chamada Nova Direita. Uma direita que se expande e hoje parece ter chances de empalmar o governo em um país emblemático como a França.

O passado ditatorial no Brasil é mais recente, e a Nova Direita também. Mas ela está aí e se agita com estridência, para que ninguém disso duvide.

Não se trata de fenômeno nacional. Por toda América Latina, assistimos ao reagrupamento de forças no campo do conservadorismo, com a emergência de novas caras, a atualização do discurso e o emprego de estratégias e táticas novas. Como na Europa, a reemergência da direita assumida se dá depois de longo processo de adaptação, e num contexto de dificuldades econômicas que lhe abre um novo campo de oportunidades. Em ambos os casos, a direita põe em questão as conquistas sociais alcançadas no período precedente. Mas há uma diferença que precisa ser frisada. Na Europa, onde a sociedade civil é mais robusta e as instituições mais sólidas, a direita trava uma guerra de posição. No Brasil e na América Latina, a direita se mostra frequentemente mais afoita: ela opta pela guerra de movimento, e busca o poder a qualquer custo, mesmo que para tanto precise transformar, como no passado, em mero arremedo os princípios do Estado de direito e as normas do regime democrático.

O livro que ora apresentamos constitui uma primeira tentativa de mapear esse fenômeno no Brasil, situando-o no contexto histórico e internacional. Procuramos traçar um quadro abrangente dele, que levasse em conta suas múltiplas dimensões e aspectos.

Mas trata-se, é bom dizer desde logo, de um esforço preliminar, em dois sentidos.

Primeiro, com os estudos aqui reunidos procuramos explorar o campo da direita no Brasil, tal como ele se mostra agora, e esboçar alguns elementos de interpretação que nos ajudem a entender sua emergência e seu significado. Mas está inteiramente ausente do livro a pretensão de explicar o fenômeno e muito menos avançar em recomendações sobre como tratá-lo em termos práticos.

Segundo, embora envolva vários colaboradores, este livro não resulta de um esforço coletivo, em termos estritos. Dada a urgência imposta pela conjuntura brasileira nesta quadra histórica, não dispúnhamos de tempo hábil para promover encontros e debates, a fim de apurar os nossos argumentos e dar-lhes maior unidade. O livro reflete, assim, a vontade comum em responder ao desafio intelectual e político lançado pela reemergência da direita desinibida entre nós. Mas os capítulos foram redigidos isoladamente por seus respectivos autores, a quem corresponde todo o mérito pelo trabalho realizado. No mesmo sentido, a responsabilidade pelo livro em seu conjunto, e suas eventuais falhas, cabe exclusivamente aos organizadores.

Dizer isso é importante porque nos permite expressar um juízo, que é também uma aspiração: nós, organizadores, não entendemos a obra como a conclusão de um processo, mas como um simples começo. A partir dela, em parte com base nela, esperamos que venham criar-se as condições para um trabalho coletivo de reflexão e de pesquisa sobre as direitas no Brasil e na América Latina, que possa se materializar em futuras iniciativas, tais como seminários, encontros e novas publicações. Esse esforço coletivo de um grupo de investigadores poderia contribuir para a tarefa urgente de consolidar um campo de reflexão sobre a direita no país e na região, ainda muito incipiente entre nós.

O livro que o leitor tem em mãos, composto da maneira acima referida, procura abarcar diferentes aspectos do fenômeno da direita. Iniciando por uma discussão teórica sobre as categorias inseparáveis de “direita” e “esquerda” no debate político, desde a Revolução Francesa – quando a distinção teve origem – até os tempos atuais, a obra avança para uma genealogia das direitas no Brasil e, em seguida, aborda diferentes faces do fenômeno brasileiro contemporâneo: a direita e o sistema partidário; a direita, o meio jurídico e o sistema judiciário; a associação com as forças policiais e sua intervenção no debate da segurança pública; sua presença nos meios de comunicação e na imprensa; a atuação na internet e nas redes sociais; as recentes manifestações de massas e suas vinculações com as classes médias tradicionais. Mas, como já apontamos, ainda que focalize o Brasil, o livro não deixa de tratar a direita em perspectiva internacional. Nesse sentido, incluímos capítulos sobre as células de agitação e propaganda da direita nos EUA; as origens do pensamento neoconservador norte-americano; as redes de institutos de difusão de ideias neoliberais – os chamados think-tanks – na América Latina e sobre os evangélicos e a política latino-americana, este último uma contribuição traduzida, originalmente publicada em um dossiê da revista Nueva Sociedad.

Contudo, como já advertimos, o leitor não deve esperar uma abordagem exaustiva da reemergência da direita no Brasil contemporâneo. Nessa direção, importantes aspectos acabaram ficando de fora. Não foi possível incluir, por exemplo, um trabalho que desse conta das vinculações das direitas políticas com as distintas frações da burguesia ou do capital, em particular com a fração, hoje hegemônica, do capital financeiro. Tampouco pudemos abordar as relações no passado, tão importantes, e ainda hoje não desprezíveis, das direitas com as forças armadas e os militares em geral. Esses e outros aspectos ficarão, como acima referido, para os futuros desdobramentos que, esperamos, o presente trabalho venha a ensejar.

Por fim, uma palavra sobre o último capítulo do livro. Ele não trata, exatamente, da direita no Brasil ou em outro país qualquer. O tema do estudo é o processo político que levou à deposição do presidente eleito de um país vizinho. Incluir esse texto como fecho da coletânea nos pareceu necessário por dois motivos.

Porque a experiência do Paraguai ilustra a perfeição de um traço saliente do comportamento da direita do século XXI, no Brasil e no continente. No passado, incomodada pelas políticas de governos populares, mesmo que moderadamente reformistas, ela apelava à intervenção das Forças Armadas, acenando com o fantasma do comunismo. Agora, descartada a hipótese de golpe militar, os expedientes são outros. Mas a mudança é apenas de forma, militar ou civil, desferido por este ou aquele ramo do Estado, golpe é golpe. A derrubada de um presidente eleito, sem amparo em acusações alicerçadas em fatos concretos, para a qual se busca a legitimação formal do legislativo e/ ou do judiciário, tudo orquestrado pelos meios de comunicação de massas monopolizados é uma quebra da ordem democrática, tanto como o foram as quarteladas e pronunciamentos militares do passado.

Dessa forma, este livro dentro da pluralidade de pontos de vista que o integram, não deixa de buscar um entrelaçamento da reflexão teórica e do compromisso com a prática política. Desejamos alertar os leitores dos perigos para a democracia e os avanços sociais recentes que decorrem da atual ofensiva das direitas coligadas no aparelho de Estado e na sociedade civil e, consequentemente, da necessidade de combatê-la.

 

Contudo, tal enfrentamento não poderá ser bem sucedido, do ponto de vista da esquerda, se não se compreender a fundo o adversário. A desproporção de trabalhos acadêmicos existentes sobre ideologias, correntes e organizações políticas de esquerda, em comparação com aqueles devotados às suas congêneres da direita, aponta para o quanto a intelectualidade progressista desprezou as direitas, suas ideias, valores e sua capacidade de interpelar e mobilizar amplos setores e frações da sociedade. Grande parte do desconcerto atual frente ao caráter multitudinário das manifestações direitistas deste ano é um resultado dessa combinação de ignorância e desprezo. Nos dias que correm, a nova direita brasileira se põe diante de nós como uma esfinge: decifra-me ou te devoro. Decifremo-la antes que seja tarde demais.
Acesse ao livro:
Capa-livro-direira-1

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