Maior jornal alemão sobre coxinhaços: “Protesto dos reacionários”.

A mídia hegemônica mostrou, como sempre de forma seletiva, a repercussão no exterior sobre os protestos contra o governo Dilma. Por exemplo, os jornais golpistas O Globo e O Estado de S. Paulo, só repercutem da Alemanha o que diz o semanário Die Zeit (420 mil exemplares por semana), porta-voz do mercado financeiro. Vejam, no entanto, a análise sobre os protestos da oposição do Suedeutsche Zeitung (maior jornal diário alemão, com tiragem de 430 mil por dia).

O Protesto dos reacionários

Um levante dos justos, a luta contra a corrupção e o nepotismo, dificilmente é o que o Brasil neste momento está vivenciando. Trata-se de uma luta pelo poder: as velhas elites das classes superiores a organizar o protesto contra a presidenta de esquerda.

O Brasil todo foi para as ruas, porque as pessoas estão fartas da má gestão e corrupção. Isso é um bom espetáculo que está sendo distribuído por vários meios de comunicação de massa contra o governo. Mas ela é boa demais para ser verdade. O que acontece de fato é que houve manifestações a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff no domingo no país inteiro e a alegação principal é que ela esteja na direção do governo mais corrupto da história do Brasil. Foi surpreendente a quantidade de manifestantes que usavam a camisa 10 da seleção nacional com o nome de Neymar. Justo contra ele há uma denúncia em função de fraude e corrupção de grande escala.

Esta é somente uma das razões pelas quais os relatos do “protesto dos justos” deve ser analisado com cuidado. Já há controvérsia quanto às estatísticas. Os números de manifestantes no país inteiro variam entre um milhão e seis milhões – dependendo de quem fez a contagem e com que intenção. Sem dúvida muitos brasileiros estavam nas ruas neste domingo, mas há também o outro lado da verdade: cerca de 200 milhões de brasileiros preferiram fazer outra coisa ao invés de se manifestar.

Na verdade, trata-se, predominantemente, das velhas elites das classes médias e altas que realizaram os protestos. Aqueles brasileiros que, no decorrer dos últimos 15 anos, durante a guinada para a esquerda, perderam muito e que neste momento farejam a grande chance de tirar a Presidência de Dilma Rousseff, que foi eleita pelo Partido dos Trabalhadores até 2018. Para este fim, qualquer meio parece lícito. No domingo, também foi pedido o “fim do comunismo” ou “o golpe militar já”.


A velha elite do poder se mobiliza contra a presidenta Rousseff

Bonecos infláveis de Rousseff e de seu antecessor na Presidência Lula da Silva foram utilizados, ambos com roupas de presidiários. Eles são suspeitos de estarem envolvidos em uma rede criminosa em torno da empresa de petróleo semiestatal Petrobras. Os fatos estão sendo apurados. O pedido de prisão preventiva expedido há poucos dias contra Lula não encontra sustentação sólida nem mesmo junto a opositores ferrenhos.

Caso se comprove algo concreto contra Rousseff ou seu mentor Lula, que namora o retorno ao mais alto cargo de Estado, então a era do Partido dos Trabalhadores estaria terminada. Mas a oposição não pretende esperar tanto, já que tem ciência de que alguns de seus dirigentes também estão na mira do processo da Petrobras. Com sua participação nos protestos, os opositores de Rousseff têm esperança de dar novo impulso ao processo de impeachment contra a presidenta que andou parado. Trata-se na verdade menos de uma luta contra a corrupção e sim por uma briga pelo poder.

Desde 1930 o Brasil não vive uma recessão econômica tão grande. O Partido dos Trabalhadores representava por muito tempo o sonho de um Estado de Bem-Estar em ascensão. O sonho se desfez e a razão para isto também é da deterioração dos preços das matérias-primas assim como dos descasos de Rousseff. O impeachment, porém, não se justifica por ineficiência na condução do Estado. Em democracias maduras sua queda seria solucionada com as próximas eleições.

Neste momento, no entanto, há poucos indícios de que a presidenta se manterá por muito mais tempo. Seu aliado político, o PMDB, ameaça com a ruptura. Caso Rousseff venha a cair, o vice-presidente Michel Temer seria empossado. Ele representa um PMDB corrupto que bloqueia todos projetos de combate à crise de Rousseff. A estratégia de Temer consiste em prejudicar a presidenta para ser empossado. Não lhe importa o dano causado ao país.

Fonte: Suedeutsche Zeitung, 14/03.

Tradução: Roberta de Souza Costa e Helga Kuster Ribeiro, para o Notas Vermelhas

Fonte: Vermelho